Escritório alemão, sobre ter inspirado Apple: "Nos sentimos honrados"
Braun vai pegar carona com volta da popularidade causada pelas semelhanças com os produtos da empresa fundada por Steve Jobs. Na mira, América Latina e produtos sexys
Pense no iPod ou a calculadora do iPhone. Seu design, e o de outros produtos da Apple, tiveram clara inspiração em uma empresa alemã que está perto de completar cem anos: a Braun e, mais especificamente, Dieter Rams, que comandou o escritório durante 34 anos e é considerado um dos nomes mais influentes do design industrial.
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Wolfgang Stegmann, designer de produtos da Braun: "Nos sentimos honrados"
O designer da Apple, Jonathan Ive, já citou algumas vezes que tem Rams como inspiração, mas o designer de produtos da Braun, Wolfgang Stegmann, ressalta, em entrevista ao iG , que nunca houve conflitos com a americana. "Ficamos honrados. A Apple não nos copiou. Se inspirou e fez algo melhor. A filosofia de Dieter está lá".
O próprio Rams, em uma entrevista ao jornal britânico Telegraph em 2011 , disse que a "Apple conseguiu algo que ele nunca conseguiu" e que a empresa "é uma das poucas que não está desvalorizando a palavra design".
Famosa por seus rádios icônicos, com sistema hi-fi, em 1984 a Braun foi adquirida pela Gilette e passou a ter mais foco em produtos como barbeadores e outros utilitários. Rams saiu do escritório em 1995 e, desde 2005, a marca se tornou uma subsidiária integral da multinacional de bens de consumo P&G, que comprou a Gilette naquele ano.
Em entrevista ao iG , Wolfgang Stegmann fala sobre o legado da marca e seus planos ambiciosos, impulsionados pela volta da popularidade da marca devido às discussões na internet sobre sua influência sobre a Apple, fundada por Steve Jobs. Isso pode significar colocar na linha de produção mais "produtos sexy" e explorar novos mercados, entre eles a China e a América Latina.
iG: O que mudou no design da Braun ao longo dos anos?
Wolfgang Stegmann : Era mais fácil nos anos 1950, 1960, 1970 ter consistência. Muitos produtos não tinham sido desenvolvidos. Se você estava chegando ao limite do design, podia mudar a forma. Tudo era novo para as pessoas. Os telefones eram atrativos. Depois de 40 anos, o quanto você pode mudar um barbeador? O barbeador pode ter hoje uma performance de 90%. Fazê-lo ainda melhor é uma loucura. É desafiador para o design fazer algo novo e também desafiador porque o consumidor espera algo. Se você faz algo novo, tem de exagerar. Para dar o exemplo do barbeador: você não passa semanas pensando qual você irá comprar. Na maioria das vezes você vai até a loja e olha: quero esta característica e esta outra. Tudo está escrito, mas depende também do preço, o quanto as pessoas estão consumindo.

Rádio de Bolso Braun T3 (1958) e a primeira geração do iPod da Apple (2001): inspiração
Houve um passado e, para ser honesto, as pessoas ficaram com o saco cheio. Tudo era preto e branco e tudo era um cubo. Aí veio os anos 1990, o design da Sony: tudo era mais vivo, dinâmico e o pessoal da moda ama isso. E o que vemos hoje parece antiquado porque as pessoas viram isso nos últimos 30 anos. Então a Braun está mudando, e tem sido bem sucedida.
O fato é que se pensarmos na cor, no que as pessoas estavam usando nos anos 1990, é difícil dizer que é um design da Braun. Nosso novo diretor de design quer voltar atrás: para como éramos e transformar isso: todas as conquistas, interpretadas de uma nova maneira.
A Braun vai voltar ao design que a tornou famosa?
Sim. E ao pensamento em qualidade, inovação, design. Tem de estar tudo junto. É um pacote. Se compra o produto, é durável por alguns anos. Não é apenas design. É mais. Nosso foco agora é na marca, e não no produto. Se fazemos hoje um barbeador e lançam outro pode ser que pareça melhor: mais atrativo, com cores mais bonitas e algumas pessoas gostam mais. Talvez há 20, 30 anos, o foco fosse: temos de vencer isto. Não precisamos de mais. Talvez seja uma estratégia durante algum tempo, mas você perde a consistência da marca. Você faz dinheiro, é bem-sucedido mas não tem foco na marca. Para nós, agora é importante focar não apenas em um produto, mas em toda uma linha. Se você tem consistência na linguagem do design é mais fácil para o consumidor porque isto custa € 50 e porque é € 150. Se fazemos um design maluco o consumidor tem de entender: tem mais cor, e o quê?
A indústria também está entendendo. Para citar um bom exemplo, pense há 20 anos: tudo era colorido, ondulado. Não é questão de que é bom ou mau. Iso está mudando. Quem sabe o que irá acontecer com o design nos próximos dez anos?
Quais são os desafios para o design em uma indústria que corta custos e para ganhar novos mercados como China?
Somos uma marca premium. Se queremos ter qualidade e alguma performance, isso custa dinheiro. Mas o desafio é que na China os consumidores não podem gastar tanto dinheiro. Não é possível, como fizemos no passado, vender produtos velhos. Podemos levá-los para a China, mas a China está consumindo mais do que qualquer país. Não podemos vender coisas velhas. Eles sabem exatamente o que está acontecendo na internet e sabem o que é novo. Não querem ser enganados. Então temos de oferecer a eles o melhor design, mais qualidade, tudo. Se gastam dinheiro em uma marca, esperam tudo. Senão, posso comprar outra marca chinesa barata. Então temos que entregar qualidade. Para nós é desafiador achar o produto certo. E também ter um design atrativo. Nosso foco nos últimos dois anos é expandir para a China. Estamos no Leste da Europa. Se quisermos crescer temos de ir para a América Latina e a China. São novos mercados. Tudo caminha nesta direção. Não vejo por quê não deveríamos ir.
Qual será o caminho?
Na China queremos oferecer uma escova manual. Porque no mercado tem apenas escovas coc cabo fino porque eles usam uma certa quantidade de material para ser acessível. Temos escovas nas quais queremos usar uma certa quantidade de material mas fazer com que a sensação na mão seja melhor. Queremos ter mais ergonomia pelo mesmo preço. É um design que dá impressão de ser feito com mais material.
Há muitas coisas para pensar. Este conceito de sustentabilidade, ser melhor usando menos material, é o mais desafiador. Não apenas para chineses, mas quem pode comprar mais. Temos que pensar no meio ambiente, mais cedo ou mais tarde. E temos que estar preparados.
Quais é a inovação mais recente da Braun?
Fizemos um barbeador com uma tecnologia que resfria o aparelho. É literalmente um refrigerador dentro de um barbeador. É o primeiro que faz isso. Quando você faz a barba a pele fica sensível. É algo que pode ser muito útil na Indonésia, onde o clima é muito úmido e quente. Se você faz a barba com ele, sente a pele refrescante. Você entrega um beneficio. É por isso que nosso produto é bem-sucedido.
Se trazemos um produto ao mercado, tem que ter algo a mais. Não apenas design. Algumas vezes leva muito tempo. Com escovas elétricas, por exemplo, não basta apenas desempenho, mas também analises clinicas. Ter uma escova mais rápida não significa que será melhor.

Calculadora ET66, de Dieter Rams e Dietrich Lubs, 1987: similar à calculadora do Iphone
Você citou que a Braun está voltando a ser popular
As discussões em torno da Apple nos tornaram populares novamente. Foi de graça, uma boa publicidade. Nunca tivemos conflitos com a Apple. Nos sentimos honrados. É só clicar na internet e a discussão estará lá. Houve algumas entrevistas no qual o designer da Apple citou algumas influências. É bom. Para nossa gestão, o design é um pilar forte. Se podeos investir mais em design, temos mais liberdade.
Quer dizer que a Braun terá mais produtos sexys?
Deveríamos pensar em mais produtos na linha de estilo de vida. A marca está aí, é valorizada, e temos que saber o que fazer para mantê-la sexy.
Temos muitos prêmios de design, como o IF (International Forum Design Hannover), Red Dot e somos bem qualificados no Steeva, que faz testes de produtos. É um bom feedback para o consumidor.
Como é trabalhar com a indústria?
Temos sorte de que a indústria mudou. Empresas estão se dando conta de que é cada vez mais difícil ter novas tecnologias porque a maioria dos produtos são já avançados. Se quer fazer uma nova cafeteira, o que é mais necessário?
Porque você compra um telefone a cada ano? Você compra porque gosta mais. No final, design é mais barato, custa menos do que novas tecnologias. Tem um produto que pode ser super sexy mas tem 2% menos performance. Eu compraria o mais sexy. Este é o equilíbrio certo.
Dos produtos antigos, existe algo disponível ainda?
Não. Apenas relógios e estamos relançando algumas linhas de relógios com alarme, mas não de rádio. O sistema hi-fi dos rádios é muito caro. Voce pode comprar hoje apenas de colecionadores.
Nos anos 90, ninguém mais queria gastar dinheiro nisso. Você podia gastar em coisas mais baratas. Você não pensa mais em coisas duráveis. Apenas compra outra nova.
* A repórter viajou a convite da P&G








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